quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Viva



Cantar ou declamar as 'marcas do que se foi' já virou clichê. Mas não deixou de ser verdade. Dois mil e onze quinze foi um ano difícil. Muito difícil. Mas, ao mesmo tempo, cada dificuldade trouxe um aprendizado, uma lição que vai ficar pra vida toda. Pessoas entraram na minha vida, umas permaneceram e outras poucas foram embora. Mas a vida é como o mar do rio de janeiro: a onda vem e volta. A cada ano que passa a gente vai deixando nossas marcas. Seja na vida das pessoas, seja na nossa própria. E é importante que não nos esqueçamos disso. É, é... Final de ano chega e vem todos aqueles sentimentos de final de ano. É natural, não é? Uma hora bate a tristeza, a melancolia, outra hora a esperança e a alegria. Porque sempre que um novo ano se inicia vem o friozinho na barriga de como vai ser dessa vez. Vai ser diferente? Vai ser pior? Vai ser melhor? Será que minhas metas serão alcançadas? Não interessa. Porque, isso eu aprendi bem, você está vivo. Mais importante que qualquer outra coisa que você ache que é mais importante: nunca esqueça que você está vivo. Agradeça sempre por isso. Agradeça a deus, a buda, a alah, à ciência ou qualquer outra coisa em que você acredite. Porque não existe melhor plano, melhor meta, melhor objetivo e melhor presente de ano novo do que viver. Ache alguma coisa pelo que viver, agarre-se a ela e não solte até que apareça outra. Estarmos vivos é a melhor dádiva que poderíamos receber. Pode viver por alguém, pra alguém ou por qualquer outra coisa. Mas se conseguir viver por você mesmo, você não precisará de mais nada. O ano foi difícil? Foi. Mas sobrevivemos. Realmente não há cruz maior que possamos carregar. Um dois mil e doze dezesseis cheio de infinitas surpresas para todos nós. Boas ou ruins. Porque em tudo na vida tem que haver o equilíbrio.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Até o infinito


Era quarta-feira. Toda quarta-feira nós nos encontrávamos na loja de conveniência de um posto de gasolina e sentávamos à mesma mesa para dividir algumas cervejas e trocar algumas palavras. Tínhamos combinado assim porque era o único dia em que nossos horários livres na faculdade batiam. Mas aquela quarta-feira era especial: tinha cinco meses que não nos encontrávamos. Ela se formara e o mestrado que ingressara em seguida forçou sua mudança de residência para o sul do país. Eu estava tão ansioso para encontrá-la que era a primeira vez que tinha chegado primeiro que ela. Ela chegou cerca de quinze minutos depois do horário combinado e eu corri ao seu encontro ainda no carro.

“Como sempre um cavalheiro”, ela disse tão logo abri a porta dela. “Cavalheiro uma porra. Eu quero é te dar um abraço!” eu disse e puxei ela para o lado de fora e apertei com toda a força que podia. Pedi desculpas por já ter tomado duas cervejas enquanto ela não chegava e ela disse que eu não precisava ter tomado a pior cerveja de todas. “Heineken aqui só com você”, eu disse e ela virou os olhos. “Ô besteira” e eu sorri porque ela só dizia aquilo por dois motivos: na maior parte das vezes era por realmente ser besteira, mas tinham aquelas vezes que era uma besteira, mas ela sorria sem perceber porque lá dentro se sentia especial. E ela revirou os olhos com um meio sorriso que eu fingi não ver.

Ela falou do mestrado, reforçou que estava decidida a enfrentar aquela expedição que havia sido convidada a ingressar no último ano da faculdade e que o namorado virara noivo um mês antes. “To me segurando até agora” ela respondeu quando eu perguntei o porquê de não ter publicado nada nas redes sociais, “queria contar pra ti primeiro”. Eu quis até dizer que aquilo era besteira, mas meus olhos começaram a lacrimejar a saudade que a presença dela fizera transbordar. “Égua, besta” ela disse antes de levantar para pegar mais duas cervejas para nós. Voltou com pacote de salgadinhos, como costumava fazer todas as quartas-feiras. “Eu estou muito feliz que você tá aqui” eu disse antes de parabeniza-la e dizer que estava ainda mais feliz por aquela notícia.

Era véspera de feriado e nós ficamos ali por cerca de duas horas até que minha mãe ligou para perguntar onde eu estava. “Isso não ia mudar em cinco meses, né?!”, eu falei com a mão no microfone do celular depois de responde-la. Ela riu e aproveitou o intervalo para abocanhar alguns salgadinhos. Depois de saber onde eu estava, minha mãe pediu que eu não demorasse e disse que estava indo para o aniversário da filha de um amigo. “Será que é a minha prima?” ela perguntou depois que eu disse o nome da aniversariante e ela lembrou que tinha o aniversário de uma prima com o mesmo nome naquela noite. Depois de ligar para minha mãe, confirmar e dizer que a faria companhia, eu e ela nos despedimos com um “até daqui a pouco” e uma hora e meia depois nos encontramos de novo.

Era quarta-feira, véspera de feriado e o aniversário aqueles de quinze anos que os últimos convidados se despedem já ao amanhecer. Mas antes que amanhecesse nós decidimos ver o sol surgir na varanda da minha casa, só para relembrar os velhos tempos em que fazíamos isso todos os fins de semana. Então eu contei para ela o enredo do romance que estava escrevendo e ainda mantinha segredo do público. “Uau, que honra” ela disse com aquele sorriso bem feliz dela antes de me dar um abraço e perguntar se eu queria um conselho quanto ao nome dos personagens, “Mel, David e Mateus” eu ouvi antes mesmo de responder que aceitava opiniões. Disse que aqueles nomes juntos não me eram estranhos e ela me lembrou que eram os nomes dos integrantes de uma banda conhecida nossa. Demos uma pausa na conversa e cantamos duas vezes aquela música que considerávamos nossa, porque esquecemos de gravar na primeira.

“Agora você não pode mais ser minha lua” eu disse depois que terminamos a cantoria e expliquei que ela ia ser uma mulher casada dali uns meses. Ela retrucou e disse que não seriam meses, mas alguns anos. O noivo apoiou sua decisão de ir para a expedição tão sonhada, mas ela precisava terminar o mestrado antes e eles já haviam reservado o buffet onde seria realizada a cerimônia. “E eu quero reservar essa área aqui da sua casa para minha despedida de solteira” ela disse e eu ri tão logo dissemos juntos o nome que costumávamos chamar a varanda da minha casa. “Está certo. Até porque, tal qual onde vai ser sua festa de casamento, esse buffet aqui é muito requisitado e precisa ser reservado com antecedência mínima de dois anos” brinquei antes de dizer que não garantia que estivesse do mesmo jeito depois de dois anos, mas que a casa era dela. Ela riu e deu uns palpites para uma provável reforma e então começou a contar sobre as reformas que queria fazer no apartamento que vinha financiado com o noivo. “Mas ainda vai demorar um pouco” ela disse antes cerrar os lábios e fazer silêncio.

Eu fiquei observando-a por cerca de uns trinta segundos. Ela estava um pouco nervosa com tudo aquilo – eu percebi tão logo ela começou a estourar todas as bolinhas mentoladas dos filtros dos meus cigarros, pela primeira vez na minha frente – mas estava feliz – por isso deixei que estourasse todas depois de fingir por duas vezes que ia impedir. E se aquelas quartas-feiras tinham meses que não aconteciam, a última vez que tínhamos amanhecido o dia na varanda da minha casa depois de uma madrugada inteira conversando sem parar tinha sido no aniversário dela, um ano e meio antes. “Será que você sonhou com esse dia?”, eu perguntei deixando-a intrigada e desviando a atenção dela que brincava de acender e apagar meu isqueiro. “Eu? Você sabe que eu sempre dizia que não ia casar, né? Mas sei lá” ela respondeu e eu perguntei se ela não lembrava de uma vez que tinha sonhado comigo e não lembrava nada do sonho, só que tinha alguma coisa relacionada a conversarmos até o infinito. “Maninho, que viagem no tempo”, ela lembrou e cobrou que eu nunca escrevera a tal história que havia prometido tão logo ela me contara o tal sonho dois anos antes.

“Parece que hoje a gente vai conversar até o infinito, né?!”, eu perguntei e sorri um sorriso sem graça antes de dizer que achava que aquilo era amor, deixando-a intrigada e desviando a atenção dela do horizonte. “Tipo assim, ao invés de eu dizer que te amo, eu digo que eu converso com você até o infinito, entende?” eu disse e confessei que esse era o motivo de nunca ter escrito a tal história que havia prometido. “Não havia história, na verdade” eu continuei, “quando você falou em conversar até o infinito, a única coisa que eu pensava era sobre amor, mas fiquei com vergonha de dizer que não tinha inventado nada e deixei o tempo passar”. Ela ergueu uma sobrancelha, torceu o nariz e disse que não acreditava que eu tivesse ficado com vergonha de uma besteira dessa.

Disse-lhe que, na época, eu ainda não conhecia aquela diferença entre umas e outras besteiras e ela corou negando que houvesse segundas emoções por trás das suas palavras. “E até parece que eu ia dizer isso, né?” ela disse com aquele mesmo sorriso de quando revirara os olhos tão logo nos encontramos, “ô besteira”. Era quase sete e meia da manhã e, na madrugada, tínhamos combinado de ir a uma churrascaria para almoçar com alguns amigos naquela quinta-feira. “Tudo que eu sinto é tão natural, vamos adentrar o portal do amor, toda suadinha vem e faz uó, eu sou sua lua e você é meu sol” ela cantou um trecho daquela que era nossa música e disse que eu não inventasse de arrumar outra lua porque o casamento não ia fazer com que eu deixasse de ser o sol dela. Eu ri e disse que a amava. Ela continuou cantando até entrar no carro. “Ei” eu ouvi tão logo fechei o portão e virei de costas para entrar em casa. Ela já punha os óculos escuros e sorria da janela aberta. “Eu também converso com você até o infinito” ela disse. “Até o infinito”, e a última gota de saudade caiu até que ela partisse novamente.

domingo, 18 de outubro de 2015

Sem adeus

“...Ontem queria ter estado com você
Sei que faria o teu sorriso aparecer
Mas hoje de manhã eu li suas palavras
Foi hoje de manhã, eu preferia nem ter acordado
Levantei e tomei o meu café
Aí o telefone tocou
Hoje de manhã tudo mudou...”
Os Descordantes - Hoje de Manhã


Acordei ainda tonto. Olhei para o despertador ao lado da cama e reconheci meu quarto, mas a memória ainda fraca não me deixava lembrar como havia chegado ali. Aquelas horas gastas no bar da esquina de casa trouxeram à tona um rapaz que, principalmente pelo fato de você odiá-lo, eu faço o possível para manter enclausurado dentro de mim. Mas sua ausência na noite anterior não me permitiu controla-lo. Já iam para duas horas de espera desde nosso último contato por telefone e dois copos de suco de laranja não pareciam ser suficientes para me distrair enquanto você chegava. E, depois de vencer o receio em te ligar mais uma vez, sua voz na caixa postal era o que faltava para eu suprir minha vontade e pedir uma dose de uísque.

Eu ainda acreditei que você pudesse aparecer. Arrumei todas as desculpas possíveis para corroborar seu atraso, como eu sempre costumo fazer antes de deixar que a decepção me domine. Lembro bem de dizer ao barman, quando aconselhado a desistir e ir pra casa depois de me abrir com ele, que você tinha me dito que estava com saudades e isso era suficiente para que eu continuasse ali a te esperar. Se você não disse que não iria, é porque ainda havia uma mínima possibilidade de aparecer. Mas minha consciência ia se esvaindo a cada dose daquele quinze anos que eu entornava na garganta. E a última coisa que me lembro, antes de abrir os olhos e dar de cara com meu despertador, é ignorar a mensagem que você me enviou por volta das três da manhã.

Hoje, ainda meio tonto, levantei da cama e segui para a cozinha. Um copo de água gelada, algumas bolachas e um iogurte foi tudo o que aquela dor de cabeça incômoda que se apossava gradativamente de mim permitiu que eu ingerisse. Ainda bem, porque dali alguns minutos eu não conseguiria ingerir mais nada. Enquanto ensaiava se lia ou não sua mensagem, percebi um bilhete em cima da mesa. Eu ainda não lembrava, mas ali o barman da noite anterior me garantia ter voltado para casa em segurança. O P.S. ao final me aconselhava a te deixar ir. Acreditei que ler a mensagem pudesse me fazer ter coragem de conseguir tal feito. A cada palavra meu peito doía mais. Eu não acreditava que você estava se despedindo de mim através de uma mensagem. E, afinal, ia para onde?

Antes que pudesse digitar seu número para perguntar, o telefone tocou. Não sei se era a dor de cabeça, mas parecia estar mais alto que de costume. Nenhuma das desculpas que eu inventara na noite anterior chegava aos pés da realidade que ensurdeceu minha audição. Via suas publicações nas redes sociais e me incomodava como você conseguia estar tão bem, sempre rodeado de várias pessoas e com sorrisos no rosto. Mas eu não sabia. Eu sequer cogitei a possibilidade de ir até sua casa e forçar esse encontro depois de tantos meses. Eu não imaginava que, ao contrário do que pensava, você seguia por um caminho escuro e solitário. A dor por não saber do seu destino só não foi maior do que a que senti quando aquela pessoa do outro lado da linha o revelou para mim. Porque você já não estava mais aqui para fazê-lo por si.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Querido João (soa bem, não é?),

 

Páginas em branco são espaços para contar uma nova história. O que não impede que novas histórias comecem em páginas já rabiscadas. E boas histórias, lindas histórias, surgem depois de alguns rascunhos. É errando que se aprende. É permitindo o coração aberto que se possibilita percorrer caminhos difíceis até encontrar a luz. A minha é branca. E é de paz.
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Lembrei daquele jeito mal-humorado de não saber ser elogiado. O sorriso quase imperceptível que os lábios forçadamente cerrados tentam disfarçar porque “alguém como você” não merece um mínimo elogio pela grandiosidade que não acredita ter dentro de si mesmo. Você, que é lindo por dentro e por fora, mas o medo do espelho não deixa reconhecer isso em si mesmo. Lembrei das primeiras horas, mais animadas, mas menos íntimas, quando você gesticulava menos para contar uma história e mais para fazer graça com a música que tocava. E quando, perto de nos despedirmos, os gestos já eram mais comunicativos que engraçados, o olhar era mais sincero que desacreditado, e a música fazia com que eu quisesse sentar cada vez mais perto de ti a cada hora que me levantava por trinta segundos só porque não tinha coragem de sentar do lado logo de uma vez.
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Eu tentei contar uma história sobre essa história, mas me perdi entre páginas e páginas abertas com um ou dois parágrafos escritos. Muito aconteceu e pouco registrei os acontecimentos em palavras – como você tão bem faz com os momentos em suas fotografias, diga-se. Então a cada lembrança um novo enredo ia surgindo e me desconcertando a inspiração com mais inspiração. Até que, entre músicas, e-mails e mensagens, onde eu buscava qualquer coisa que pudesse me fazer concluir pelo menos um daqueles escritos, eu percebi que essa é uma das histórias mais loucas, lindas e intensamente verdadeiras que eu irei viver na vida. Histórias assim devem ser contadas tal qual aconteceram, porque devemos à exatidão dos acontecimentos o fato de serem incríveis.
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Lembrei de um dos poucos momentos em que me deixei transparecer amedrontado, e a única coisa que me dava paz era ouvir tua voz, que se fazia calma mais porque eu precisava do que por você estar se sentindo assim. Lembrei do quanto eu sou muito mais “inho” do que penso e que o fato de te ver fofinho, lindinho e meiguinho nada tem a ver com infantilidade, mas com essa empatia e compaixão que eu sinto tanto e dificilmente encontro em outras pessoas. Lembrei de quantas vezes te vi deitado e dei um passo à frente para te acompanhar, acovardando-me em seguida para dar o segundo. E do quanto eu quero ter ouvido que sou teu tipo de cara e não que faço ligações entre assuntos divergentes. Lembrei de ti sem camisa, acanhado, enquanto eu só queria, sem malícia mesmo, deitar minha cabeça do no teu ombro ou te fazer cafuné enquanto você deitava a sua no meu dentro daquela piscina de onde víamos a nossa praia de Copacabana.
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Eu tentei falar dos primeiros meses do ano e do quanto aquela loucura toda era a loucura que eu mais precisava experimentar para me sentir vivo. Mas é impossível explicar e se fazer entender para quem nunca perdeu a sanidade. Então percebi que há na loucura uma coisa que, sãos ou não, todos conseguem enxergar: a liberdade. Não importa o quanto tenhamos sido loucos ou assim deixado de ser aos olhos dos outros, nós fomos livres aos nossos próprios olhos. Fomos livres para nos conhecer e desconhecer, para ganhar e perder. Fomos livres para perdoar sem esquecer aquilo que já não é mais lembrado. Fomos livres para amarmos, sermos amados e amarmos mais ainda a vida. Livres fomos à loucura e loucos nos sentimos livres para ser sãos.
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Eu lembrei do olhar. Do olhar sorrindo que me fazia desviar meus olhos para qualquer lugar que não estivesse diretamente fitando os seus. E lembrei daquela vontade de fugir porque eu queria continuar me sentindo daquele jeito que você chamava de estranho de sentir. E queria saber se era tão estranho, mas capaz de ser traduzido em algum momento como um desejo louco, uma vontade incontrolável de ser feliz que aquela pessoa em frente parecia a solução. E queria mais tempo para gerar mais coragem de agir do jeito que eu quis agir diversas vezes e não consegui. E lembrei de quando me dei conta que o tempo chegava ao fim e a covardia da palavra falada foi abalada pela coragem das palavras escritas. Foi quando eu te vi partir.
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Eu tentei desabafar sobre um dos momentos mais difíceis que carrego na lembrança, mas para falar do quanto foi também um dos momentos que eu mais me orgulho de lembrar. Estava receoso de que, ao fazê-lo, sentimentos conturbados viessem a se misturar com a gostosa nostalgia que era reler algumas das coisas que eu havia parafraseado numa agenda, mas fui surpreendido pela percepção de que sua honestidade é a lembrança mais nítida que tenho daquele momento. Quando confrontado com todas aquelas palavras duras ditas por você meses atrás, foi a tua sinceridade o que mais me assustou. A verdade dói, mas, ainda assim, é uma verdade. E a honestidade pode assustar e doer o quanto for, mas, ainda assim, ela faz parte de quem você é.
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Na hora que ouvi você dizer que não chegaria ao fim foi quando eu acordei com medo. Um medo daqueles mesmo, que a gente sente no coração, às vezes sem explicação. Mas, dessa vez, era um daqueles medos em que gente só quer se fazer acreditar que não tem explicação. Porque sabemos seus motivos, sabemos sua origem, sabemos o risco que existe em não leva-lo em consideração. Ficamos reféns daquele sentimento que parece corroer o interior da gente por completo, deixando-nos vazios e incapazes de enfrentar esse medo, porque sentir-nos preenchidos de algo que nos faz bem não nos é permitido. Ou, pior, não nos é merecido.
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Eu tentei até escrever sobre o nosso primeiro encontro meses depois de nos falarmos pela última vez: o impacto da troca de olhares, o chão que faltou em seguida, as lágrimas lamentando a falta de palavras, o amadurecimento cobrando atitude, o álcool dando coragem e o amor me fazendo dar o primeiro passo. O mesmo amor que me faz lembrar da nossa história e ter certeza que algumas histórias são curtas, mas nem por isso são menos importantes ou perdem o encanto enquanto estava sendo escrita – principalmente se for uma história incrível. O mesmo amor que me fez sorrir com o seu segundo passo e todos os outros passos nossos que vieram em seguida. O mesmo amor que me faz te levar comigo no coração para onde for.
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Eu acordei com medo. E era muito medo mesmo. E então lembrei do quanto a lembrança pode ser a cura num momento de temor. O quanto ter sido feliz em algum momento pode aliviar aquele coração acelerado e o olhar aflito e inerte fitando a parede. Eu lembrei e me senti tão especial e querido e reconhecido e inspirado e feliz que não consigo nem usar vírgulas para dar espaço e comprometer a medida real de todos esses sentimentos. Eu lembrei e eu quis fazer lembrar, porque seria covardia demais de minha parte deixar mais uma vez passar aquele momento em que eu tenho a chance de dizer alguma coisa e, ao invés de sentimentalizar, dramatizo o que poderia ser o primeiro passo para ser feliz.
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Obrigado, João, por termos vivido uma das histórias mais incríveis que um dia poderemos contar. Obrigado, João, pela disposição em me acompanhar na loucura, pelo querer recíproco da sanidade e, principalmente, por ter dividido comigo o sabor da liberdade. Obrigado, João, por ter sido honesto comigo por querer e não só por ser necessário. Obrigado, João, por ter me ensinado mais sobre o amor que um dia você pode imaginar. Obrigado, João, por você ter ficado, mesmo depois de ter me dito que ia partir. Eu consegui me acostumar com o teu silêncio porque, como disse uma vez, parei de questionar nossas razões e escolhi ser feliz, mas nunca aceitei de bom grado a possibilidade de nunca mais te ouvir. Obrigado, João, por acreditar em mim. Obrigado, João, por quebrar o teu silêncio e permitir que eu pudesse me sentir ainda mais feliz.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Confuso é complicar

 

Pergunta-se: porque que ele passa tanto tempo sem falar e agora, do nada, resolve abrir o verbo? Você deve estar achando que eu estou falando isso como uma forma de indignação. Mas não, é pra responder da seguinte forma: nunca é tarde. Pra isso nunca é tarde. Pro amor nunca é tarde. Aí ele fala que não quer te confundir, que ele já ta confuso. Mas confundiu. Confundiu porque se ele não tem certeza do que sente, porque ele fala? Num era ele que não queria falar? Mas... Nunca é tarde, não esqueça. Pra ser bem sincero com você, talvez seja impossível que ele tenha isso claro na vida dele. Sozinho, realmente, ele não vai ter. Ou vai, daqui a uns dez anos, quando você estiver casada, com um casal de filhos e morando n’um apartamento de meio milhão. Talvez ele nunca vá chegar numa conclusão. Assim como você também não.

Porque, de uma certa forma, você também é uma pessoa confusa, não é? Não que você não tenha certeza do que sente por ele, mas é que agora apareceu uma pessoa na sua vida, bem bacana, e te confunde saber se troca o certo pelo duvidoso, certo? Mas que certo? Porque ele é legal, bacana, gente fina, te chama pra viajar, te chama pra tudo e quer compartilhar tudo com você? Nós virginianos somos muito certinhos, então daríamos belos indianos do tipo: amor se constrói. E não iríamos arriscar a vida procurando amores por aí, pra só casar quando estivéssemos realmente apaixonados.

Mas, apesar de certinhos, nós não somos tão virginianos assim. Preferimos uma paixão arrebatadora, que doa no peito de tão intensa, a um amor mais calmo. E sabe porque? Porque a nossa vida tão certinha carece muito de emoção. E a nossa emoção vai entrar justamente aí, na parte que nós realmente não podemos controlar: o coração. E é por isso que a gente se confunde tanto quanto estamos falando especificamente de relacionamentos amorosos. Nossa cabeça é um mar profundo, mas tão profundo, que a gente não sabe se vai conseguir chegar ao fim. No caso em questão, chegar a uma conclusão. Você sabe se é isso que você quer? É ele que você quer? Ou é simplesmente o fato de isso estar mexendo profundamente com suas emoções que te faz querer isso

Acho que você nunca desistiu dele. Ele está marcado em você de uma forma que só quem já passou por isso sabe. Eu sei. E não há nada que vá mudar isso. Isso é amor? É. É amor o que você sente por ele. Mas isso não quer dizer que você precise estar com ele pra ser feliz. É um amor que vai ficar aí pra sempre. Não vai sair de você nunca. Porque, assim como eu, você ama de verdade. E quem ama de verdade não esquece jamais. Não esquece porque de cada amor que passa pela sua vida, você carrega um pouquinho pra sempre. A pergunta, então, aqui é se você realmente QUER estar com ele, ou é simplesmente esse desejo, essa vontade de estar com aquele cara lá, aquele cara que representou tanto na sua vida

O que aquele moço representa pra você hoje? Eu sei que ontem ele representava um carinha legal, mas que num rolava muita coisa assim. E hoje? Como está hoje? Como você se sente perto dele hoje? Amanhã... Bem, amanhã é amanhã. Se preocupar com o amanhã só traz mais problemas pra gente (e nem adianta eu falar isso... nós virginianozinhos metódicos não conseguimos olhar pra hoje sem pensar no amanhã). A pergunta fatal, que eu te fiz há alguns meses atrás, lembra?, é a seguinte: quem te faz sentir borboletas no estômago? É difícil. É muito difícil tomar decisões, refletir sobre tudo isso e chegar a uma conclusão só. Isso se chegar a alguma conclusão. Deixa a poeira baixar, a cabeça pensar, o coração acalmar.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Entre falas, gestos e escritos

 

Nunca fui bom em oratória. Pelo contrário, falar em público sempre me deixou nervoso, com mãos trêmulas e suando frio. Apresentar trabalho na sala de aula era a maior tortura da minha vida. Nunca soube lidar em ser o centro das atenções para coisa séria. Talvez tivesse vergonha das minhas ideias ou simplesmente não conseguisse ser firme para ensinar alguma coisa.

Com o tempo acabei aprendendo a lidar melhor com isso, acabei aprendendo que, em determinadas situações, eu seria obrigado a encarar as pessoas à minha frente. E, mais importante ainda, eu iria aprender a encarar até mesmo aquelas que eu não conhecia. Claro que isso não acontece em todas as ocasiões, mas consigo ser suficientemente corajoso pra apresentar um trabalho, pra expor uma ideia a um grupo, para ler meu discurso de formatura da forma mais natural possível e até para me declarar àquelas pessoas por quem me apaixonei. Alguns eu conquistei assim.

Já outros por pequenas atitudes que eu também sempre considerei muito mais importantes que quaisquer outras extremamente magníficas. Sempre me ateei ao simples, aos detalhes. Porque, pra mim, era aí que tava a beleza da coisa. O significado era mais importante do que o próprio objeto. Alguns eu conquistei assim.

Mas eu sempre fui bom em escrever. Sempre fui elogiado pela letra, pelas palavras bem articuladas no papel, pela criatividade nas atividades que exigiam o uso da imaginação. Sempre fui bom em me esconder atrás dos papéis. Foi assim que uma vez namorei por cartas, ou na vez em que quis contar aos meus pais que eu fumava, ou até mesmo na hora de pedir desculpas por algo errado que fiz. Muitos eu conquistei assim.

No acontecer das coisas acabei conquistando por cada parte dessas. Mas, se gostaram de mim, me amaram foi porque conheceram pelo menos um pouco de todas delas. Só que o tempo passa, as coisas mudam, quer você queira, quer não. Aqueles com as quais você mais agia, você passa a falar mais. Aqueles com que você mais falava, acaba escrevendo mais. E aqueles para os quais mais escrevia, agora se relaciona apenas por pequenos gestos.

Nem eu seria capaz de entender isso sem vivenciar. Porque passei quase minha vida inteira acreditando que as coisas não podiam ser assim. Que essas mudanças não significavam o natural ciclo da vida, mas uma falta de amor, uma falta de sentimento, um desprezo que chegava a ser muito desprezível. Nunca foram justos comigo aqueles que isso faziam. Até que eu visse, ouvisse, lesse, sentisse na pele, no sabor e, por fim, entendesse.

E quando você entende você acaba querendo que todos os outros entendam também. Essa é a parte difícil que você também demora pra aceitar. Que os outros tem o próprio tempo. E esse tempo um dia chega. O tempo que você percebe que pode estar feliz sozinho. O tempo que você percebe que te amam, mas a forma como demonstravam isso pode ter mudado. E até não existir mais. Mas isso não quer dizer que o sentimento não está ali.

Mas é o ciclo natural da vida. Nem todo mundo entende. Nem eu entendia. Nem você, talvez, entenda. Isso é crescer. Pra mim crescer é entender. Desde que eu comecei a olhar para as coisas da vida com um olhar de aprendizado e não da vítima perseguida na sua felicidade, eu passei a estar mais feliz. Porque, sim, eu sei que meus problemas não são maiores que os dos outros. Mas eu já sei discernir, dentre os meus, para os quais eu devo realmente buscar soluções ou para os quais eu tenho que tirar da categoria de problema e colocar na prateleira de simples egocentrismo.